quarta-feira, 6 de julho de 2011

CIGARRAS

Outro dia eu estava pensando que, nas aulas de geografia da professora Cidália, eu não conseguia imaginar o que era ter as estações do ano bem definidas. Isso provavelmente aconteceu porque quando criança, minha mãe sempre dizia pra levar pelo menos uma blusa e uma calça quando ia passar as férias de verão com meus primos na praia. Aposto que vocês também passaram por experiências parecidas durante a infância.

Pois bem, só vivendo em um país temperado é que consegui entender o que é isso... Aqui, inverno é inverno e verão é verão. Ponto final. Pra quê você vai levar calça e blusa numa viagem de verão? Você está louco?

Bom, divagações a parte, eu gostaria de comentar um pouco sobre o período de reprodução das queridas cigarras. Desde junho, no comecinho do verão, já é possível escutar um barulhinho tímido desses bichinhos... mas chega uma hora que eles fazem tanto barulho, mas tanto barulho, que chegam a me acordar diariamente!!! Parece que tem uma panela de pressão prestes a estourar de tanto barulho que fazem. Lembro que no ano passado, na primeira vez que fui acordado com esse barulho, pensei que estava no Brasil com minha mãe cozinhando feijão na panela de pressão! Bizarrice, né? Veja como é simpático o som deles no video abaixo.

Ah, só para constar, agora que fui reparar que os animes japoneses colocam o barulho desses insetos no meio das cenas! Tipo, antes eu não dava a mínima para esse som, mas agora eu consigo fazer a relação correta da estação do ano, roupas que os personagens estão usando, o que eles estão comendo, etc! Coisas que você só aprende quando vai morar longe de casa!

Reparem no som ao fundo do video abaixo a partir de 3:50. Os personagens estão conversando exatamente sobre os planos para as férias de verão! Legal, né? ;)

domingo, 26 de junho de 2011

O LADO B DO JAPÃO (part 2)

A segunda diferença que percebi foram as longas horas que os alunos permanecem nas dependências da faculdade.... Tá certo que eu não sou nenhum modelo de dedicação ao horário de trabalho... mas muitas pessoas são presença constante no laboratório: chegam sempre antes de mim e vão embora depois...

Fico me perguntando sobre o grau de rendimento dessas pessoas... quando se trabalha num ambiente de humanas, em que o cérebro é o único e exclusivo meio de trabalho, não há santo que faça funcioná-lo por tantas horas seguidas... aí que eu percebo que muitas pessoas ficam na faculdade simplesmente matando tempo, acessando websites, serviços de redes socias, videos no youtube, etc... Aí eu te pergunto: pra quê fazer isso?

Isso pode ser explicado pelo modelo de gestão japonês, marcado pelo sistema de hierarquia (seniority), em que a recompensa é medida pelo tempo de trabalho na casa e pelo seu esforço, bem diferente do modelo americano de recompensa por resultado obtido. Eu não sofro muito com isso, porque meu orientador não controla meus horarios, mas tenho certeza que meus companheiros de laboratório devem me achar um `vagabundinho`, que quase nunca está no laboratório! hehehe...

Foi nesse ponto que mais uma máscara caiu pra mim... aquela imagem de japoneses trabalhadores e dedicados foi por água a baixo! Gente, eu não estou dizendo que eles não alcancem ótimos resultados em suas pesquisas (basta observar os avanços científicos alcançados por eles)... mas que uma parte do tempo eles estão apenas enrolando e matando tempo, isso eles estão! Às vezes me pergunto se eles não poderiam gastar esse tempo com sua família, ou bebendo uma cervejinha com os amigos, como costumamos fazer no Brasil... enfim, só estou divagando mais um pouco...

Bom, essas são as duas diferenças que mais me incomodam no momento... vou tentar postar mais coisas conforme for vivenciando.... Antes de finalizar, preciso dizer que apesar de tudo, eu respeito muito a cultura e os costumes desse país. O que eu penso sobre tudo isso é: se o governo japonês se dispôs a financiar meus estudos durante 4 anos, cabe a mim reconhecer, me adaptar, conviver e aprender com as diferenças.

Mas é claro que viver essa realidade é muito mais complicado do que simples palavras. Só vivendo aqui para entender o que estamos realmente passando... não são raros os momentos que eu me desanimo, falo mal de tudo e de todos e tenho vontade de jogar tudo pro alto... mas o que tento fazer é ter calma e encarar as coisas de uma forma mais positiva.

Acho que seria muito ingrato da minha parte ficar apenas criticando e salientando o quanto o meu país é melhor em determinados pontos. Se o Japão é tão ruim ou se o Brasil é tão melhor, acho que seria mais sensato desistir de tudo e viver aquilo que me faz bem (já dizia o sábio professor Caju que “a vida é feita de escolhas”). Mas calma, esse ainda não é o meu caso, gosto de viver aqui e não trocaria isso por nada (pelo menos por enquanto!).

Torçam para que eu consiga visualizar muito mais coisas positivas daqui em diante! Até a próxima!

sábado, 25 de junho de 2011

O LADO B DO JAPÃO (part 1)

1 ano e 2 meses escrevendo sobre o Japão e você, leitor desse blog, deve se perguntar: nossa, mas esse garoto só fala bem do país, será que tudo é tão bom e belo como ele diz?

Pois bem, acho que chegou o momento de escrever sobre o lado B do Japão. Antes de mais nada, gostaria de esclarecer que, o que escreverei a seguir tem a ver com os sentimentos de um descendente de japonês que nasceu e cresceu em um ambiente tupiniquim, com crenças e valores completamente opostas às que se têm por aqui.

Outra coisa que acho válido apontar, é que não se trata de uma comparação de quem é melhor ou pior... são apenas alguns sentimentos que tive e que me fizeram sentir um pouco assustado ou até triste.

A primeira coisa que me chamou a atenção no meu laboratório, foi a tal da “timidez” dos japoneses. Eu, como bom descendente, já sofri muito com a timidez no meu tempo de escola, em que eu tinha dificuldades para me relacionar com as pessoas ou até para “chegar junto” daquela garota.. mas depois de conviver com os japas por um tempo, passei a perceber que a timidez deles é um pouco diferente... cada vez mais sinto que é meio que uma desculpa para não encherem o saco deles...

Se tem uma coisa que eu aprendi aqui, é que as relações sociais são muito claras... os japas possuem uma capacidade inacreditável de distinguir colegas de trabalho e amigos. Por isso, eles conversam somente o necessário e com aqueles que possuem algum interesse. Tudo que estiver fora desse padrão, é considerado um “incômodo” (面倒くさい – MENDOU KUSAI).

É muito triste dizer isso, mas os estrangeiros geralmente acabam se enquadrando no grupo de colegas de trabalho que, por estarem fora do padrão de vida deles, são extremamente MENDOU KUSAI. Logo que cheguei aqui, todos diziam que os japas não falam com estrangeiros porque são tímidos, mas tenho a impressão que eles não falam com a gente porque é muito trabalhoso ter que falar em inglês, ou repetir a mesma coisa vinte mil vezes, ou fazer gestos para conseguir estabelecer o mínimo de comunicação...

Enfim, toda essa divagação para dizer que numa sala de pesquisa com 35 seres, existem dias em que eu entro e saio sem trocar nenhuma palavra com ninguém... Algumas pessoas se limitam a balançar a cabeça ou a dizer um `bom dia`, outras chegam ao cúmulo de baixar a cabeça quando cruzam com você no corredor... parece besteira, mas isso é uma coisa horrível, principalmente para nós, latinos, acostumados com o calor humano...

Tendo em vista essa situação, não são raros os dias em que eu almoço ou tomo café sozinho também.. mas sabe o que é mais estranho? Existem muitos japoneses solitários também... é como se o MENDOU KUSAI não se limitasse apenas aos estrangeiros, mas para todas as relações sociais... como se fosse muito trabalhoso manter qualquer tipo de relação e pudesse resolver tudo por conta própria... muito bizarro!!!!

Gnt, o post está ficando muito comprido... como sempre, dividirei-o em dois!

domingo, 19 de junho de 2011

TOKYO (part 2)

No domingo, fomos para a Disney Sea com o nosso guia particular Minoru. Ele estava em Tokyo resolvendo umas coisas pessoais e decidiu passear um pouco com os pobres brasileiros perdidos.

Meu, o parque é muito foda né... primeiro que ele fica numa área exclusiva, em que você não tem contato nenhum com a cidade... para se ter idéia, você tem que utilizar um monorail próprio da Disney para chegar nos parques.. Segundo, que ele é realmente um mundo de fantasia: tudo muito lúdico, muito perfeitinho... os caras conseguem pensar em todos os detalhes e fazem com que você entre de cara num mundo de fantasias!

Por ser domingo, o parque estava lotado e tivemos que enfrentar várias horas de fila... para piorar a situação, o calor já estava começando a pegar... foi meio que uma amostra-grátis do que viria no verão... apesar desses pequenos detalhes, foi muito divertido passar o dia com a Letícia e o Minoru. Pudemos conversar sobre váaaaarias coisas durante as filas e, claro, tivemos um intensivão de japonês também.. hehee..

Ah, só para constar, o Minoru comprou um livro de português e começou a estudar a nossa querida língua. Nós até fizemos uma chamada-oral com os substantivos listados no livro, muito comédia! Ah, e claro... depois ele fez uma chamada-oral com a gente sobre conjugação verbal em todos os tempos e meu, cheguei à conclusão que eu já virei analfabeto.... hauahauahua....

Enfim, seguem algumas fotos que tiramos. A foto abaixo é da torre do terror, em que a Letícia estava quase chorando pra subir... mas nossa, foi muuuito tranquilo!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

TOKYO (part 1)


Dois meses após sua partida, fui até Tokyo visitar minha irmãzinha Letícia. Resolvi pegar um trem-bala (新幹線 - SHINKANSEN) na sexta-feira de tarde para poder aproveitar melhor o fim de semana.

Essa foi a primeira vez que usei o trem-bala e fiquei impressionado com a eficiência: fiz uma distância de 510 km em apenas 3,5 horas. Algumas curiosidades: os trabalhadores (社会人- SHAKAIJIN) costumam beber cerveja e surume (uma lula seca) durante a viagem. O maquinista avisa quando o trem passa ao lado do monte Fuji, dizendo para aproveitarmos a bela paisagem da montanha! Há tomadas nas poltronas para serem usadas para recarregar o iphone ou o notebook.

Chegando em Tokyo, a Letícia foi me buscar na estação e fomos dar um rolê pela cidade. Passamos por alguns parques e, em seguida, fomos no apartamento de uns brasileiros comer um curry muito bom! Nossa, tinham mais de 10 pessoas (entre brasileiros e portugueses) reunidas e foi bem legal conhecer gente de diferentes áreas. Foi lá que eu percebi que o sofrimento dos estrangeiros é o mesmo em qualquer lugar desse país... todos sofrem com o choque cultural, timidez dos japas, falta de calor humano, etc... enfim, foi bom compartilhar um pouco das nossas angústias!

No sábado, a gente foi fazer compras em Shibuya. A única coisa chata é que estava chovendo o dia inteiro e Tokyo é phoda né: faça chuva, faça sol, tudo é muito cheio e lotado.... No final do dia, já cansado de ficar como um pinto molhado, sugeri que voltássemos para casa para pedir uma pizza e assistir um filme... você pode estar dizendo: meu, que desperdício, programa de índio estando em Tokyo... mas meuuuu.. eu não aguentava mais ficar molhado no meio de tanta gente e guarda-chuva!!!

Enfim, foi bom ter voltado pq pudemos conversar mais e descansar para o dia seguinte! Aliás, a minha irmãzinha anda aprontando bastante pela cidade grande, viu? Espero que ela conte algum dia em seu próprio blog! Hehehe...